Leia também
Alimentação seletiva nas férias no autismo: como manter segurança
Dicas para TEA: cardápio base, combinações seguras e exposições leves sem pressão durante as férias.
Calor e autismo (TEA): como aliviar desconforto sensorial
Estratégias práticas no TEA para dias quentes: ajustes de roupa, hidratação, pausas sensoriais e sinais de sobrecarga térmica.
Sono no autismo: rotina, melatonina e quando buscar ajuda
Se a sua família vive ciclos de dormir tarde, acordar muitas vezes ou “só pega no sono depois de muito desgaste”, você não está sozinho. Alterações de sono são muito comuns no Transtorno do Espectro Autista (TEA) e podem afetar: humor, atenção, comportamento, aprendizagem e a saúde mental de todo mundo em casa.
Este guia é prático: o que costuma atrapalhar, como montar uma rotina possível, o que observar antes de procurar remédio e quando buscar avaliação médica.
Leia também: Níveis de suporte no autismo (DSM-5), Risperidona no autismo e Canabidiol (CBD) no autismo.

Resumo rápido (em 60 segundos)
- Primeiro objetivo: previsibilidade + redução de estímulos + consistência.
- Sono no TEA raramente é “preguiça”: geralmente é combinação de sensorial, ansiedade, rotina, comunicação e hábitos.
- Comece pelo básico: rotina curta, horário estável, luz baixa, menos telas e “sinais de sono”.
- Melatonina pode ajudar em alguns casos, mas deve ser discutida com pediatra/psiquiatra (dose e segurança variam).
- Se houver ronco alto, pausas respiratórias, refluxo, dor, coceira, crises ou “virou a noite”, procure avaliação.
Por que o sono costuma ser difícil no autismo?
O sono é um “resultado” de várias camadas. No autismo, algumas delas aparecem com mais frequência:
- Sensibilidade sensorial: ruído, luz, temperatura, tecido do pijama, etiquetas, cheiro do quarto.
- Ansiedade e hiperalerta: o corpo demora a “desligar”.
- Rigidez e necessidade de previsibilidade: mudanças pequenas (uma visita, viagem, escola) bagunçam o ciclo.
- Dificuldades de comunicação: a criança sente dor, refluxo, coceira ou medo, mas não consegue explicar.
- Rotina familiar exausta: quando o dia é caos, a noite vira “hora de recuperar”, e o corpo perde horário.
Não existe uma “solução única”. O objetivo é montar um sistema simples que funcione para o seu contexto.
Checklist: o que pode estar atrapalhando (para investigar em casa)
Antes de mudar tudo de uma vez, marque o que acontece:
Ambiente
- Quarto com luz (mesmo pequena) ou claridade da rua
- Barulho (vizinhos, TV, trânsito) ou silêncio “assustador”
- Calor/frio (suor, cobertor pesado, ventilador barulhento)
- Textura do pijama/lençol incomoda
Rotina e hábitos
- Dorme e acorda em horários muito diferentes
- Toma muito líquido tarde e acorda para fazer xixi
- Come pesado muito perto de dormir
- Tem tela (celular/TV) perto do horário de dormir
Corpo e saúde
- Ronca alto, respira pela boca, tem pausas respiratórias
- Refluxo, vômitos, dor abdominal, constipação
- Coceira/dermatite/alergias
- Dores (cabeça, dente, ouvido)
Emoções e estresse
- Medo/ansiedade na hora de dormir
- Crises no fim do dia (overload)
- Mudanças recentes (escola, separação, viagem, rotina nova)
Se você marcar vários itens de “corpo e saúde”, vale colocar médico na jogada mais cedo.
Higiene do sono no TEA: o que realmente funciona (sem virar guerra)
Aqui vai o essencial. A regra é: poucas mudanças, bem feitas.
| O que atrapalha | Ajuste simples | Como aplicar hoje |
|---|---|---|
| Quarto com estímulo | Luz baixa e ruído previsível | Abajur fraco + ruído branco baixo |
| Rotina longa/confusa | Rotina curta com 4–5 passos | Mesmo roteiro, mesma ordem |
| Ansiedade na transição | Sinais visuais | Quadro com 4 passos e “fim do dia” |
| Mudanças de última hora | Antecipação | Aviso com tempo e opção de “plano B” |
1) Horário “âncora”
Escolha um horário realista para acordar (inclusive no fim de semana, com pequena variação). O sono começa a “se organizar” pelo horário de acordar.
2) Rotina curta (15–30 minutos)
Rotina longa demais cansa e vira palco de negociação. Exemplo de sequência:
- banho morno (se ajuda)
- pijama confortável
- luz baixa
- história curta ou música calma
- mesma frase final (sinal de fechamento)

3) Sinais visuais (para reduzir ansiedade)
Um quadro simples com 4 passos (desenho/ícones) pode reduzir brigas. Se a criança usa comunicação alternativa, mantenha os símbolos à mão.
Veja também: CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa).
4) Redução de tela e estímulo
Se tirar telas de uma vez causa crise, faça transição:
- reduza brilho
- troque por áudio/história
- crie “última tela” com hora definida
5) Estratégias de autorregulação
Algumas crianças relaxam com:
- peso (coberta ponderada, se for segura e indicada)
- pressão profunda (massagem leve, “sanduíche” de travesseiros)
- som constante (ruído branco baixo)
- objeto de conforto previsível
O objetivo é reduzir hiperalerta, não “forçar a dormir”.
Melatonina: quando considerar (e quando não)
Melatonina não é um botão de desligar. Ela costuma funcionar melhor quando a rotina já está minimamente organizada e o problema principal é “demora para pegar no sono”.
Considere discutir com o médico quando:
- você fez ajustes básicos por 2–3 semanas e continua levando 60–90+ min para dormir quase todos os dias
- a privação de sono está afetando escola, comportamento e saúde da família
Evite “autoajuste” sem orientação quando:
- há ronco forte e pausas respiratórias (investigar apneia antes)
- há suspeita de dor/refluxo/convulsão
- a criança usa outras medicações e você não sabe interações
Este post é informativo e não substitui orientação médica individualizada.
Quando buscar ajuda profissional (sinais de alerta)
Procure avaliação (pediatra, neuropediatra, psiquiatra, otorrino ou equipe do sono) se houver:
- ronco alto + pausas respiratórias
- sono muito agitado, “vira a noite” com frequência
- despertares com pânico, dor ou vômitos
- regressão importante de comportamento junto com piora do sono
- suspeita de convulsões noturnas
Plano de 14 dias (simples) para começar hoje
Escolha apenas 3 ações para testar por duas semanas:
- Horário âncora para acordar
- Rotina curta (máx. 5 passos)
- Ambiente (luz/ruído/temperatura) com 1 ajuste
Marque em um papel:
- hora de dormir (deitar)
- hora que pegou no sono
- despertares
- como foi o dia seguinte
Isso ajuda a saber se você está evoluindo ou só sofrendo no escuro.
Perguntas frequentes (FAQ)
Melatonina vicia?
Em geral, não é considerada “viciante” como alguns sedativos, mas o uso deve ser orientado por profissional e reavaliado periodicamente.
Meu filho só dorme vendo TV. O que faço?
Faça transição gradual: reduza brilho, diminua volume, passe para áudio/história e coloque horário fixo para “última tela”.
Ronco pode afetar comportamento?
Sim. Sono fragmentado pode piorar irritabilidade, atenção e regulação emocional. Se ronco é frequente, vale investigar.
Coberta ponderada é segura?
Depende da idade, peso, orientação e tolerância. Converse com profissional (TO/pediatra) antes de usar.
Referências e leituras úteis
- Ministério da Saúde (Linha de cuidado TEA): https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtorno-do-espectro-autista/
- OMS / CID-11 (informações gerais): https://icd.who.int/
Gostou deste conteúdo?
Explore mais artigos sobre autismo, inclusão e experiências que podem ajudar você e sua família.
Posts Relacionados
Continue explorando conteúdos que podem interessar você
Fogos de artifício e autismo: estratégias de regulação sensorial
Passo a passo para preparar a criança para fogos e festas: prevenção, rotina segura, alternativas sensoriais e o que fazer durante uma crise.
